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segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Pequenas coisas de todos os dias

Depois de escrever o post que me rendeu milhares de horas cantarolando Raul Seixas e sentir saudade de um monte de coisinhas que eu deixei pra trás durante meus 25 anos anos, lembrei de uma reportagem que falava exatamente disso.

Não consegui encontrar o link original, mas me lembro que era a história de um cara que tinha perdido a esposa - ou perdido a memória, talvez, e se lamentava por não ter lembranças registradas das pequenas coisas que eles viveram. Só restaram fotos da esposa maquiada, em festas, com amigos, e o que ele mais gostava de lembrar dela era quando estava cozinhando, de cabelo desarrumado. Lembro que nesse dia pensei em uma foto da minha mãe, que morreu há quase 10 anos, de camisola tomando café na cozinha. Eu sempre gostei de fotos assim, dessas que ninguém se prepara pra tirar e nem vê quando é tirada. A verdade é que as melhores coisas são as que ninguém se preparou e a maioria nem viu acontecer.


Não consegui achar a outra foto, mas achei essa que é no mesmo estilo.


Minha maior lembrança da minha mãe é do dia que ela morreu. Logo depois que ela me contou que queria se matar, disse que não tinha conseguido fazer as coisas que queria depois que eu nasci (e eu perguntei se a culpa era minha, claro. Mas ela disse que não) e eu fiquei ali segurando a mão dela, olhando cada pedacinho de pele em forma de triangulo. E o cheiro. O cheiro da minha mãe era diferente de tudo o que eu conheço na vida. Acho que a única pessoa que eu reparei um cheiro diferente de todas as outras pessoas do mundo.

Depois eu larguei a mão dela e fui fazer outra coisa. Não lembro o que. Ela entrou no banho, quando saiu de lá tomou dois vidrinhos de veneno de rato e pronto. Desmaiou indo em direção a cama e morreu, no hospital, 5 dias depois. A última vez que vi a minha mãe viva foi ali. Não quis visita-la quando estava em coma e nem ler a carta que ela deixou (meu pai leu pra mim depois, mas eu não lembro e não quis guardar. Acho que ficou com a polícia). Eu prefiro ter a lembrança dos triangulozinhos juntinhos um com o outro formando a pele dela. Não lembro o dia certo que isso aconteceu, mas foi num domingo. Não sei se era julho ou agosto. Só sei que tem coisa que não dá pra guardar em foto. Nessas horas dá vontade de ter um negócio igual aquele do Dumbledore, onde ele mostra as memórias pro Harry, sabe?

Atualização:

A Gabi Dornelas encontrou o texto que eu citei lá em cima, o link dele é esse aqui:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/112455-recordacao.shtml